{"id":889,"date":"2020-05-16T23:40:08","date_gmt":"2020-05-16T23:40:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marcelogreco.com?page_id=889"},"modified":"2020-06-18T00:26:14","modified_gmt":"2020-06-18T00:26:14","slug":"texts","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/marcelo.riosgreco.com\/?page_id=889&lang=pt-br","title":{"rendered":"Textos"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Territ\u00f3rio \u00cdntimo<\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Parte 1<\/strong> (maio de 2020)<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00e3o um objeto met\u00e1lico em formato retangular, um pouco maior que uma caixa de f\u00f3sforos. Em uma das superf\u00edcies havia um disco transparente e, dentro dele, um ponteiro. N\u00e3o sabia porque esse objeto existia em minha casa, o&nbsp;fato \u00e9 que ele me fascinava. Segurando firme com minhas m\u00e3os, descobri que o ponteiro se mexia. Se apontava para a janela, o ponteiro ia para um lado e, se me virava &#8211; \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda &#8211; para dentro de casa, para o arm\u00e1rio aberto, o ponteiro ia automaticamente para o outro extremo. Como podia isso acontecer? Nada tocava aquele ponteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem acima descreve um momento da minha inf\u00e2ncia, um per\u00edodo indeterminado, quando eu devia ter entre 5 e 8 anos. N\u00e3o sei se a experi\u00eancia ganhou import\u00e2ncia na minha mem\u00f3ria ao longo do tempo ou se de fato, quando acontecia, ela era assim m\u00e1gica. Mas, em minhas recorda\u00e7\u00f5es, eu ficava absolutamente deslumbrado em perceber como o ponteiro daquele equipamento estranho se movia. Fiz esse experimento v\u00e1rias vezes e sempre ocorria o mesmo. Questionava-me, surpreso, como o ponteiro se mexia sem contato f\u00edsico de nenhuma esp\u00e9cie. Ali havia uma magia, uma esp\u00e9cie de emo\u00e7\u00e3o que me contagiava. Nunca saiu da minha mente o fasc\u00ednio dessa experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida prosseguiu&nbsp;e,&nbsp;muito tempo depois, quando me envolvi com a fotografia, compreendi racionalmente o fen\u00f4meno que havia presenciado na inf\u00e2ncia. Entendi primeiro que aquele objeto era um fot\u00f4metro e que a tal magia, na realidade, era a medi\u00e7\u00e3o da intensidade de luz do ambiente. No entanto,&nbsp;o verdadeiro encanto, pude compreender com o tempo, n\u00e3o estava no movimento do ponteiro,&nbsp;mas sim na minha imagina\u00e7\u00e3o, naquilo que eu criava como possibilidades para explicar aquele acontecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi pelos aspectos t\u00e9cnicos da cria\u00e7\u00e3o de uma imagem que a fotografia me seduziu. Claro que esta dimens\u00e3o \u00e9 fundamental para a elabora\u00e7\u00e3o de uma linguagem; n\u00e3o a desconsidero. Mas me atra\u00ed pela riqueza das experi\u00eancias pessoais que a fotografia \u00e9 capaz de me propiciar. E me encantei pela percep\u00e7\u00e3o de que uma imagem se cria pelo movimento do meu corpo e da minha imagina\u00e7\u00e3o. O fasc\u00ednio est\u00e1 exatamente a\u00ed. Como criar imagens que representem meu universo interior, minha imagina\u00e7\u00e3o, utilizando para isso a mat\u00e9ria do meu exterior, do meu entorno? Este \u00e9 o desafio da autoria com a fotografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendi logo cedo que exercer a profiss\u00e3o de fot\u00f3grafo &#8211; refiro-me aqui \u00e0 fotografia aplicada comercialmente &#8211; n\u00e3o seria o meu caminho. Eu percorreria um territ\u00f3rio particular, que \u00e9 o uso da fotografia como forma de express\u00e3o pessoal. Ser um autor \u00e9 um desafio do campo do sens\u00edvel. \u00c9 utilizar uma linguagem para criar uma imagem que represente algo interno. Nesse exerc\u00edcio de estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre o mundo externo e o mundo interno, corremos sempre o risco de nos tornarmos narc\u00edsicos em demasia. Compreender como enxergamos o mundo e o que tem de n\u00f3s em cada imagem,&nbsp;\u00e9 um exerc\u00edcio que exige um certo desprendimento de si.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Toda vez que criamos uma imagem,&nbsp;efetuamos um exerc\u00edcio de recorte do mundo. Neste sentido esse recorte obrigatoriamente fala muito mais do autor do que do mundo em si. Por que esse recorte? Por que realiz\u00e1-lo com a linguagem escolhida, n\u00e3o importa qual seja ela?<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente esses questionamentos, se refletidos com cuidado e sinceridade, obrigam-nos a concluir que o mundo \u00e9 um grande cen\u00e1rio para nossas paisagens internas. O desafio \u00e9 sermos capazes de construir, com linguagem adequada, as representa\u00e7\u00f5es do que sentimos, pensamos, temos de experi\u00eancias e desejamos narrar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Parte 2<\/strong> (junho de 2020)<\/p>\n\n\n\n<p>Volto \u00e0 cena da minha inf\u00e2ncia na qual aparecem um arm\u00e1rio, em uma das paredes do quarto, e uma janela, do outro lado. Primeiro, o arm\u00e1rio e tudo que havia dentro dele: o ponteiro &#8211; aquele objeto que mais tarde eu iria saber se tratar de um fot\u00f4metro&nbsp;&#8211; movimentava-se para um dos extremos. Em seguida, o olhar para a janela: o ponteiro caminhava para o outro lado. O interior escuro do arm\u00e1rio e a luz do mundo l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito tempo depois, com repetida persist\u00eancia e alguma experi\u00eancia, pude compreender que a cena da minha mem\u00f3ria de inf\u00e2ncia apresenta quest\u00f5es fundamentais da busca pela autoria.<\/p>\n\n\n\n<p>No arm\u00e1rio guardamos objetos pessoais, nossos segredos. Mergulhar para dentro desse lugar escuro,&nbsp; \u00e9 como descer \u00e0s minhas sombras. Em paralelo, a outra simbologia: o mundo atrav\u00e9s da janela ser\u00e1 sempre um recorte, limitado por uma moldura, um v\u00e3o espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mergulhar neste arm\u00e1rio escuro sempre me pareceu mais interessante, misterioso e perturbador, que a luz do mundo l\u00e1 fora. A fotografia, para mim, \u00e9 como uma sombra. Para uma sombra adquirir forma \u00e9 necess\u00e1rio uma luz projetada em algo f\u00edsico, num corpo.&nbsp; A sombra \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o desse objeto real. N\u00e3o \u00e9 o objeto em si, mas est\u00e1 intrinsecamente conectada a ele, existe por causa dele. A fotografia se assemelha \u00e0 sombra na medida em que tamb\u00e9m necessita dessa materialidade do mundo para existir como ato de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa rela\u00e7\u00e3o entre realidade e proje\u00e7\u00e3o chamo de &#8220;efeito sombra&#8221;. \u00c9, para mim, o ponto crucial na fotografia. Sua for\u00e7a vem exatamente deste lugar, da intersec\u00e7\u00e3o que existe entre o real e sua proje\u00e7\u00e3o. Olhamos para sombra acreditando olhar para um real. \u00c9 neste ponto que a fotografia ganha contornos de algo m\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p>O fot\u00f3grafo recorta o mundo. A imagem \u00e9 invariavelmente feita atrav\u00e9s de uma janela. Esse recorte fala mais de n\u00f3s do que do mundo. O entendimento dessa rela\u00e7\u00e3o entre mundo interno e mundo externo \u00e9 dif\u00edcil de ser alcan\u00e7ado. Todas as nuances desse processo s\u00e3o imprecisas, como os detalhes flutuantes de uma sombra.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Territ\u00f3rio \u00cdntimo Parte 1 (maio de 2020) Na m\u00e3o um objeto met\u00e1lico em formato retangular, um pouco maior que uma caixa de f\u00f3sforos. Em uma das superf\u00edcies havia um disco transparente e, dentro dele, um ponteiro. N\u00e3o sabia porque esse objeto existia em minha casa, o&nbsp;fato \u00e9 que ele me fascinava. 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